senha e sonho e sanha com que esta palavra penetra no baile máscara de maria-ninguém de fatura recente ou será arca de ganas do tempo do rei cadê o cabaço lacre de selada estampilha exigido por lei cadela safada muamba curtida no bodum das galés saturnália entrudo ostra grudada ao casco do navio fidalga de tamanco sem nem um pingo acre de sangue azul real verbete acessado de uma enciclopédia cibernética de gafes vestes inconvenientes de quem não sabe com quem está falando usa papel-carbono pra burlar alfândegas chega sem passaporte sem convite sem o répondez s’il vous plait cara de pau dribla a catraca do guichê da chefia do cerimonial não exibe pendurado no peito atestado de salubridade pública miss maxixe embigada corta-jaca que se insinua nos finos salões palavra empenhada sem lastro de chão ou teto patrimonial nem pé-de-meia tem casca grossa não tem no cu o que periquito roa hectares de terras que possui são as que carrega debaixo das sujas unhas heranças de nenhumas capitanias heriditárias necas de pitibiribas de sobrenomes ilustres topless e desnuda de sesmarias de família ignorada do frio da pá ao pavio da foice e do sudário pó de pau de anta vassoura de bruxa vírus viridiana da próxima epidemia mundial de gripe vetada pelo código de barras do produtor e do consumidor inhaca de marafona impudica vira-lata da chinfra arraia-miúda da folia da grei espojada se emprenhando ao vento vário na caçamba de camião ou ao relento ralando as coxas nuelas no lombo neutro do sexo da mula sem cabeça
(Waly Salomão – Tarifa de Embarque – Editora Rocco, 2000. pp. 64/65.)
Dando seguimento às narrativas sobre acontecimentos singulares, aproveito para compartilhar com os leitores deste "imblogrio" um fato sobrenatural presenciado por pessoas insuspeitas. A fenômeno se passou na Biblioteca Pública, mais precisamente nas dependências do Teatro Zaqueu de Melo, palco de memoráveis peças londrinenses, em especial as de Mario Bortolotto que fez do Zaqueu, durantes anos, a casa do grupo Cemitério de Automóveis. Segue abaixo um texto que fiz muito ligeiramente para a Folha Norte em 2008, narrando o que ouvi da boca do guardião daquele teatro, o o grande senhor Jesu.
O OBJETO SINISTRO DO TEATRO ZAQUEU DE MELO
Um dos casos sobrenaturais mais intrigantes de Londrina é o do objeto sinistro do Teatro Zaqueu de Melo. O acontecimento testemunhado por dois funcionários é absolutamente verídico, e até hoje desafia a inteligência de especialistas em fenômenos paranormais que não encontraram uma explicação para o que aconteceu naquela noite da década de 80. Os funcionários se encontravam na Biblioteca Pública, prédio ao qual o teatro é conjugado. Um deles era o guarda. O outro, o responsável técnico do Teatro Zaqueu de Melo que ficara trabalhando até mais tarde. Os funcionários já tinham apagado as luzes das salas da biblioteca. Somente as mudas estantes de livros lhes faziam companhia. O funcionário do teatro foi ao encontro do vigia para trocar um dedo de prosa e assim ficaram descontraídos durante alguns minutos. Somente as vozes dos dois ecoavam na sala principal da Biblioteca. Eis senão quando os dois ouvem um som em alto volume, o estrondo horrível de um objeto metálico, como se uma bola de ferro viesse repicando pelos degraus da escada do teatro Zaqueu de Melo. Ainda sem saber do que se tratava, e temendo que o tal objeto pudesse causar algum dano material ao prédio público, os dois funcionários correram imediatamente em direção à escada. Quando chegaram lá acenderam as luzes e não encontraram absolutamente nada. Subiram e desceram as escadas e nada encontraram. Não acreditavam que um som tremendo daqueles não tivesse causa. Onde estava o objeto esférico metálico? A única suposição aventada é que antigamente o Teatro Zaqueu de Melo era o Tribunal do Júri do Fórum de Londrina, local onde muitos assassinos foram condenados, e os fantasmas dos justiçados e injustiçados perambulavam com suas roupas manchadas de sangue.
Sempre acordo com alguma música na cabeça, e essa manhã de frio súbito me trouxe à mente a bela interpretação que ouvi do amigo multi-instrumentista Marcos Scolari segunda feira passada, quando nos encontramos na casa de Bernardo Pellegrini. Marquinhos me emocionou com a canção "Loucos de Cara" de Kleiton Ramil, gravada por seu irmão, Vitor Ramil no LP "Tango". Deixo aqui - nesse post veloz - os versos e a uma versão do proprio Vitor, dessa obra-prima da canção gaúcha. E que bela sensibilidade essa família tem. Me fez pensar que a música brasileira fora do eixo hegemônico deve muito a duas delas: os Espíndola no Mato Grosso e os Ramil nos Rio Grande. Bem, elocubrações à parte curtam aí e depois me falem alguma coisa.
Loucos de Cara
Vem anda comigo pelo planeta
Vamos sumir!
Vem nada nos prende
Ombro no ombro
Vamos sumir!
Não importa que Deus jogue pesadas moedas do céu
Vire sacolas de lixo
pelo caminho
Se na praça em moscou
Lênin caminha e procura por ti
Sob o luar do oriente
Fica na tua
Não importam vitórias
Grandes derrotas, bilhões de fuzis
Aço e perfume dos mísseis nos teus sapatos
Os chineses e os negros
Lotam navios e decoram canções
Fumam haxixe na esquina
Fica na tua
Vem anda comigo pelo planeta
Vamos sumir!
Vem nada nos prende
Ombro no ombro
Vamos sumir!
Não importa
Que Lennon arme no inferno a polícia civil
Mostre as orelhas de burro
aos peruanos
Garibaldi delira
Puxa no campo um provável navio
Grita no mar farroupilha
Fica na tua
Não importa que os vikings queimem as fábricas do cone sul
Os amigos que estiverem a fim de dar uma olhada na minha dissertação sobre o Catatau, o genial romance de PauloLeminski, aviso que ela já está disponível no site Domínio Público (clique aqui). É um trabalho singelo em que tento analisar alguns aspectos literários e filosóficos dessa obra verdadeiramente complexa e que comprova que Leminski era um artífice da palavra, um cara que manjava demais de história e filosofia. Como eu tento defender no trabalho, o Catatau deve ser encarado como um romance filosófico na tradição de Voltaire, Laclos, Mann, Sartre, Camus, Machado de Assis, Guimarães Rosa entre muitos outros geniais praticantes dessa forma. A contribuição de Leminski (entre tantas!) foi levar o gênero romance filosófico ao paroxismo, a partir do "racional delírio" da linguagem de Lewis Carroll, outro autor que uniu filosofia e literatura de forma absolutamente criativa.
Minhas excusas aos amigos que freqüentaram este blog e o encontraram desatualizado. Estive e ainda estou envolvido com alguns trabalhos que demandam minha atenção em tempo integral, dentre eles a redação de uma dramaturgia para o dileto ator e escritor Márcio Américo. Aliás, um trabalho que estava devendo a ele há cerca de uns quatro anos, apenas...
Estou também contente com a presença do Armazém Companhia de Teatro em Londrina para 41a edição do FILO. Espero que os amigos possam assistir "Inveja dos Anjos" na próxima terça e quarta-feira no Teatro Ouro Verde. Será mais um belo encontro entre a companhia e Londrina, a cidade onde ela foi fundada, o que traz muitas recordaçõe e emoção para o elenco. "Inveja dos Anjos" chega ao FILO após uma belíssima temporada de seis meses na Fundição Progresso, um recorde realmente, se considerarmos que "Inveja dos Anjos" não é uma comédia.
Pra quem está no Rio de Janeiro ou imediações, o recado: A temporada da peça "Inveja dos Anjos" com o Armazém Companhia de Teatro vai até dia 31 de maio. As apresentações rolam de quinta a domingo às 20 horas na Fundição Progresso - Rua dos Arcos, 24 - Lapa. A peça foi considerada a melhor de 2008 e abiscoitou dois prêmios Shell. Um deles foi pra essa moça aí de vermelho, nossa amiga e irmã, a grande atriz Patrícia Selonk. Ao lado dela, na foto, está o meu chapa Thales Coutinho, vascaíno convicto, a quem carinhosamente apelidei de o "Romário dos Palcos".